Mais da metade dos municípios piauienses enfrenta problemas com crack

Matéria publicada em: 04/06/2017 às 16:42

O crack é uma droga presente em praticamente todos os municípios piauienses, segundo informações divulgadas pelo site Observatório do Crack. No entanto, as prefeituras de Teresina, Parnaíba e, pelo menos, outras quase 70 cidades não enviaram os dados para o organismo ligado à Confederação Nacional dos Municípios. O mapa de 2016 mostra que a droga avança no interior: 137 dos 224 municípios piauienses já têm problemas relacionados ao crack, sendo que 20 estão em situação mais grave. As cidades com alto nível de problemas relacionados ao uso da substância variam desde a capital do Estado até pequenos municípios como Morro Cabeça do Tempo e Baixa Grande do Ribeiro.

 (Crédito: Divulgação)
(Crédito: Divulgação)

O delegado Menandro Pedro, titular da Delegacia de Prevenção e Repressão a Entorpecentes (DEPRE), declarou que nos últimos dois anos 355 gramas de crack foram apreendidas em operações da Polícia Civil do Piauí e que a droga é o principal indicador para o aumento da violência em todo Estado, pois qualquer crime afeta a sociedade trazendo a sensação de insegurança.

“A gente sabe quando as drogas entraram em algum município, quando percebemos que a violência está acontecendo. O número de furtos, assaltos e arrombamentos dispara, pois os dependentes precisam de dinheiro e bens materiais para conseguir a droga e assim os traficantes iniciam um mercado do tráfico no interior e na capital”, disse.

O envolvimento com o uso de drogas é o maior causador de violência e dentre as drogas ilícitas o crack é a que causa maior destruição, por conter alto poder de alucinação e rápida absorção. “É uma droga que vicia muito rápido, ela veio para acabar uma geração. Ela chegou e disseminou muito rápido e em todo o Piauí. É difícil dizer uma estatística de cidade por cidade no interior porque existem pequenas bocas de fumo”, acrescentou.

Negócio de família

Delegado Menandro Pedro (Crédito: Ana Cláudia Santos)
Delegado Menandro Pedro (Crédito: Ana Cláudia Santos)

Segundo dados da polícia, as bocas de fumo de pequeno porte são as grandes responsáveis por movimentar o tráfico no interior, já que, quando o traficante é preso, geralmente algum familiar, como a mulher ou filho, assume o comando e continua a comercialização ilegal. “A mulher fica vendendo a droga, às vezes, espontaneamente, ou forçada, para custear a defesa do marido e as despesas da casa, e o consumidor dessa boca é o jovem desempregado, que tem que furtar e assaltar para alimentar o vício e gera uma violência muito grande”, frisou.

O delegado esclarece que em apenas dois a três anos, a droga destrói psicologicamente e fisicamente os usuários. “Eles começam furtando dentro da própria casa, a escola, depois a situação só agrava. Somente a repreensão não resolve nada, são necessárias ações de prevenção integradas entre os poderes públicos”, avaliou.

Entre as medidas que podem ser adotadas, o delegado defende a implantação de escolas em tempo integral e serviço de conscientização através de palestras educativas e de prevenção com crianças e adolescentes para conseguir multiplicadores.

Mortes

Nos casos que envolvem homicídios, o delegado afirma que são crimes difíceis de prevenir e também de investigar, pois quem testemunha um assassinato por dívida de tráfico de drogas ou de uma facção criminosa tem medo de retaliação. No entanto, a segurança pública tem recursos e bons agentes escolhidos para investigar os crimes.

Efeito rápido e degradante

O crack é a cocaína na forma de cristal, sendo mais forte, potente e mais arriscada do que a cocaína comum. A cocaína geralmente é obtida na forma de pó. O crack é obtido em blocos sólidos ou cristais de cores diferentes como: amarelo, rosa-claro ou branco. O crack é aquecido e fumado. Chama-se assim por causa do som de um pequeno estouro quando é aquecido. Fumar crack permite que a droga atinja o cérebro muito rapidamente e assim dá um “barato” intenso e imediato.

 (Crédito: Kelson Fontinele)
  (Crédito: Kelson Fontinele)

“O crack destrói uma pessoa, a família e todos que convivem ao seu redor. Ele não escolhe por sexo e nem classe social. Quem usa o crack apenas uma vez já se torna dependente, já que uma pedra tem efeito de 15 segundos e logo tem que ter outra. Já ouvi depoimentos de dependentes que chegaram a utilizar 50 pedras por dia. A droga só tem dois caminhos: a prisão e a morte”, enfatiza o delegado Menandro Pedro.

Em Teresina, o tráfico avança e faltam hospitais para atender os casos mais graves da dependência química. Uma assistência que depende apenas das comunidades terapêuticas. A assistente social da Fazenda da Paz, Danúbia Pires, conta que a instituição realizou 1.671 atendimentos em 2016, além de 406 internações notificadas na FMS. (W.B.)

Faltam leitos para internação hospitalar

Nos casos mais graves em que há necessidade de hospitalização, não existem leitos disponíveis em hospitais públicos para receber dependentes químicos. No Hospital do Mocambinho, na zona Norte de Teresina, existe apenas o trabalho de desintoxicação de 15 dias, os pacientes são medicados e em seguida retornam para o acolhimento nas comunidades.

“Existem pessoas que encontram dificuldade de atendimento, que aguardam por vaga, ficam esperando. Nós temos um bom relacionamento com o hospital, o serviço de assistência social sempre busca encontrar a melhor forma para resolver, mas infelizmente não consegue atender toda a demanda, e, nesses casos, ou o dependente procura o serviço particular ou fica em casa”, disse. (W.B.)

Justiça acumula três mil processos

Enquanto as políticas públicas são falhas, falta assistência e informação, assim como notificações que não são realizadas sobre a dependência química no Piauí. Os números de crimes e processos envolvendo o tráfico de drogas só crescem, sem contar em outras instâncias, afinal, questões relacionadas ao tráfico são as principais responsáveis por elevar o número de assaltos, arrombamentos e homicídios.

Especializada no julgamento de crimes de tráfico de drogas, a 7ª Vara Criminal de Teresina que tem como titular o juiz Almir Abib Tajra, acumula cerca de 3 mil processos em andamento de casos envolvendo tráfico de drogas. Somente em 2017, 200 réus já foram sentenciados em penas que variam de 8 a 15 anos de prisão e que podem aumentar caso sejam acrescidos outros crimes, como porte ilegal de arma. No entanto, a mudança no perfil dos traficantes preocupa as autoridades locais.

Juiz Almir Abib Tajra (Crédito: Ana Cláudia Santos)
Juiz Almir Abib Tajra (Crédito: Ana Cláudia Santos)

“No início, nós percebíamos que os traficantes eram pessoas de origem humilde que estavam tentando ganhar algum dinheiro, mas atualmente pessoas de classe média e classe média alta estão traficando drogas, principalmente cocaína. O crack é mais utilizado por pessoas sem muito poder aquisitivo”, disse o juiz.

Além disso, o juiz revelou que a participação das mulheres está se equiparando à dos homens no crime de tráfico de drogas, são quase meio a meio. “O tráfico é um crime que mexe com toda a família. Nós já temos casos em que netos de pessoas que estão presas condenadas por tráfico estão traficando drogas no lugar do pai e do avô”, pontua. (W.B.)

 

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